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A RÍTMICA DOS AFETOS

  • Foto do escritor: bito
    bito
  • 16 de mai.
  • 3 min de leitura

O cavaquinho chama o ritmo na palhetada. Palma da mão, palma da mão, palma da mão. Os adereços são apresentados ao mesmo tempo em que o casal se conhece e se apaixona. A levada do pandeiro entra orquestrando a roda. O número começa com uma bola de contato - sensível, translúcida, roçando a pele. O violão preenche o ritmo no contratempo melódico, enquanto o casal se entende muito e começa a pensar que foram feitos um para o outro. As bolas russas são arremessadas. 3-4-5-6-7 bolas, alternando compassos e criando frases rítmicas e visuais. O grave do surdo dá a sustentação. O casal pensa em perspectiva e planejam juntos a primeira viagem. A ilusão do número com argolas é prazerosa. Já não se sabe mais quantos são, se seguem juntos ou separados. Os olhos brilham e o coração, também. O repicado do tamborim chama os primeiros conflitos. O casal descobre que o outro é outro e diferente. A relação nos contratempos começa a soar como o número de swing poi: flui, mas com rastros. O andamento não pode cair. Palma da mão, palma da mão, palma da mão. Número de pirofagia e a dobrada do tantan. O calor e a luz do fogo assustam. O casal começa a acreditar que não há para onde ir, o fim parece ser caminho. Ouvimos ao fundo o sotaque choroso da cuíca. O número agora mistura técnicas e a tensão aumenta cada vez mais. A métrica já não comporta a contagem dos tempos. A derrocada parece inevitável até que, numa genialidade rítmica, a virada do repique de mão ajusta a frase e fecha a quadratura. O número termina em clímax. O casal se entende e os corações acalmam. O público está em êxtase, pronto para o próximo número, para a próxima música, para o próximo ciclo.



Vejam só! Este texto poderia ser uma partitura.


Voltei a praticar malabares. Resgatar os meus adereços, adormecidos há mais de uma década no fundo de uma caixa, tem sido uma experiência singular. Perceber como meu corpo, transformado ao longo destes anos, novamente encontra os pesos e os movimentos do jogo, me trazem boas memórias e reflexões. A prática é visual, dinâmica e podemos sentir a pulsação. Toda a concentração, a contagem dos tempos, a construção de frases rítmicas, são como música. Foi interessante relembrar como o malabarismo é mais ritmo do que coordenação mecânica. Assim como a manutenção dos afetos numa relação. 


Enquanto relações assentadas em modelos “ditos” normativos me soam como o forte-fraco-fraco do compasso ternário de uma valsa - chato, sonolento, obsoleto  e que não sustenta contratempos - busco construir relações sincopadas.  Relações em que caibam deslocamentos da acentuação rítmica. Vínculos baseados numa escuta cuidadosa, que se aprofunda na coincidência dos ritmos e cria camadas complexas no tecido sonoro e afetivo. Conexões que rejeitam a sincronia e buscam, como numa roda de samba, uma simultaneidade das diferenças. 


Seria lindo se fosse simples. Na prática, a teoria é outra. Se entramos numa relação esperando um movimento suingado e dançante, com o tempo o que encontramos são compassos quebrados, assimetrias e muita dissonância. Os ritmos se tornam mais complexos e a composição, com andamento cada vez mais acelerado. Algumas vezes, o que se pede é pausar por alguns tempos e esperar a deixa para novamente entrar, em outras é fundamental atacar a cabeça do compasso e iniciar a frase no tempo forte. Muitas vezes, o ajuste está na modulação, tão difícil de saber quando usar. Outras vezes ainda, o alinhamento está em anacruse. É começar pequeno, no tempo fraco, o diálogo que só irá se concluir no compasso seguinte. Mas, é muito comum que a métrica se quebre e você tenha que lidar com compassos de 5, 7, 9 tempos, te fazendo perder a contagem sem direito à ritornello.


Talvez, uma relação demande estudo. Talvez não. Recentemente, viralizou nas redes sociais as performances do duo canadense Angine de Poitrine, criando músicas em instrumentos modificados a partir de escalas microtonais. Descobri que eles estão inseridos num gênero musical chamado Math Rock - rock matemático, em bom português. É divertido, musicalmente complexo e vale como experiência. Entretanto, está muito longe de te abraçar como um samba de Clementina de Jesus que, inclusive, cantou lindamente sobre conflitos afetivos em Incompatibilidade de Gênios. 


Talvez, o fato de eu ser um desastre na música, nos malabares e nas relações queira dizer algo. Talvez não. Se assim fosse, compositoras teriam resolvidas as suas relações. Arranjadores dariam aulas de manutenção afetiva. Percussionistas, então, articulariam redes de afeto com grande maestria. Na dúvida de tantos “talvezes”, sigo praticando.


 
 
 

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