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A DOR É UMA CANETA QUE FALHA

  • Foto do escritor: bito
    bito
  • há 10 horas
  • 2 min de leitura

Elaborar a dor por meio da escrita é sempre um desafio. Escrever sobre a dor é como escrever com uma caneta que falha. O legível é interrompido, mas alcança sua completude nas marcas que ficam. Escrever sobre a dor é lidar com a ausência, com os rastros da memória, com a sensação de vazio. É dizer por meio daquilo que não é possível ser dito.


Eu gostaria de retomar este lugar de escrita e compartilhamento, que sempre me acolheu como um abraço, com uma situação leve e divertida. Com um tema que eu pudesse observar e compartilhar contigo com alguma ironia e despretensão. Mas, sinto dor, muita dor. A dor de um rompimento que leva consigo o visível do caminho à frente, que torna opaca a realidade que acreditamos interpretar. A dor de uma relação afetiva que não mais existe, que se vai e parece levar consigo a regulação do ciclo circadiano e deixar uma sensação de aperto na região epigástrica. Em outras palavras, noites sem dormir e aquele vazio na “boca do estômago”, tão reconhecível quanto impossível descrever. Podemos chamar de angústia?


O dramaturgo Marcus Mazieri, com quem dividi casa e processos criativos ao longo de vários anos, certa vez colou na porta da geladeira um poema visual que nunca irei esquecer. Escrito no turbilhão do término de uma relação de grande envolvimento emocional, dizia muito com apenas duas palavras: AGORA DOA!


Com a psicanálise, aprendi que elaborar o luto é lidar com ausências que nunca irão se completar, que todo término leva consigo uma parte de nós. Com a não-monogamia, aprendo que as relações se transformam e comportam múltiplos formatos e concomitâncias. Evidente, nas sessões e nas leituras tudo parece mais fácil. Já na noite insone, entre lágrimas, a dor é muito dura e a compreensão incerta. Como doer o que fica e doar o que foi? A cura é um processo insólito e de fórmula sempre singular. Cada percurso é único e o aliado comum é somente o tempo.


A série espanhola Los Años Nuevos é genial por abordar o tempo na construção das relações. Somos outros a cada quanto e muitos desses outros só podem ser vistos numa escala temporal distanciada. Os episódios da série que abordam o distanciamento do casal protagonista são muito simbólicos. Num deles, a personagem que vai tem uma crise de ansiedade no meio da rua. Ainda que a comunicação com a personagem que fica já não exista há anos, a saída da crise se dá por meio da memória do cuidado entre elas, que sempre foi base da relação, mas que acabou sendo ofuscado pelas dificuldades de lidar com a complexidade do outro. 


Talvez, a memória do cuidado pode ser um caminho para o processo de cura. Deixar assentar a dor e que a lembrança dos abraços quentes abram caminhos para os outros que virão. Só saberemos com o tempo.


 
 
 

3 comentários


Paula Toledo
Paula Toledo
há 9 horas

Seu texto me deu uma espécie de autorização simbólica para mostrar a minha dor que tenho tentado esconder pra que não descubram a minha vulnerabilidade.

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Paula Toledo
Paula Toledo
há 9 horas

"A cura é um processo insólito e de fórmula sempre singular".

Que bom que você abriu esse espaço e fez uma espécie de convocação. Estou em dor há algum tempo, mas tentando sustentar o personagem que dá conta. Não estou dando conta. O corpo e a mente entraram em colapso, mas tenho me recusado a escrever, mesmo sabendo que, de algumas formas, a escrita foi sempre meu primeiro e último recurso. Estou me recusando a dar espaço pra dor e isso tá me matando.

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bito
bito
há 8 horas
Respondendo a

Que bom te ler, Paula!

Elaborar a dor é um processo sempre difícil. Estamos junts nesta jornada.

Te mando um abraço!

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