DORMINDO COM REFERÊNCIAS
- bito

- 12 de mar.
- 3 min de leitura
Atualizado: 13 de mar.
Tá, vamos lá, o texto de hoje é um anúncio: BUSCO PARCERIAS!
Desde que comecei a migrar das artes da cena para as artes performativas e visuais, entre 2014 e 2017, me deparei com uma grande dificuldade em criar junto. Se no circo e no teatro só era possível existir em parcerias, me assustei quando encontrei um imenso arquipélago de artistas-ilhas que pouco dialogam entre si. Sei que isso tem a ver com qualidades inerentes à essas linguagens, de processos criativos mais individuais e solitários, mas não só. Nunca me deixei sucumbir.
Na minha inocência de artista jovem inexperiente, saí mandando textos super elaborados para meio mundo que me inspirava, apresentando ideias e propondo parcerias. Por supuesto, nadie respondió. Quer dizer, o Arnaldo Antunes respondeu depois de muitas semanas educadamente dizendo que não se interessava em participar dos meus projetos. Um grande querido.
Se, em algum momento, cheguei a pensar que minha caixa de e-mail ficaria abarrotada de mensagens de grandes artistas em polvorosa querendo trabalhar comigo, fracassei miseravelmente.
Com o tempo, aprendi outras maneiras de juntar pessoas e criar junto. Uma, óbvio, é ter dinheiro. As coisas fluíram muito mais nas vezes em que fui aprovado em editais ou encontrei outras formas de fomento. Outra, as residências artísticas. São potentes esses lugares onde se juntam e convivem artistas de trajetórias e linguagens muito distintas.
Em 2022, me foi ensinada uma boa estratégia durante uma residência: me aproximar de artistas que estão próximos. Parece redundante, mas não é. Vernissage e eventos culturais são bons momentos para isso. Foi importante entender que, ao invés de mandar um e-mail para a Adriana Varejão convidando-a para criar uma obra em collab comigo, era mais interessante eu me aproximar da galera da minha geração, que constroem suas trajetórias concomitantes à minha. Me surpreendeu a quantidade de artistas que me responderam e uma parte considerável demonstrou interesse em me encontrar e saber mais sobre meus processos.
Aqui vale uma anedota. Alguns desses encontros tomaram caminhos variáveis e um tanto quanto curiosos. Lembro de algumas noites eu chegar na cozinha da residência dizendo “galera, hoje vou receber uma pessoa muito incrível aqui no ateliê, uma grande referência para mim, tô super feliz”. Nas manhãs seguintes, após me despedir da referência no portão e sentar à mesa, recém tomado de banho, para meu café com bullying, acabava tendo que rechear minha tapioca com “eae, Bito, quando é que você vai apresentar a obra que criaram ontem” ou “agora entendi o que você quer dizer com arte relacional”. Certa vez, uma artista jogou com as palavras “gente, isso que o Bito tá fazendo é uma performance que se chama: dormindo com referências”. Foram encontros que não necessariamente culminaram em grandes obras, mas que se tornaram relações que levo para a vida. Nunca entendi completamente.
Anedotas à parte, hoje não posso reclamar, vivo parcerias incríveis. Como numa rede em expansão, há quem passe pontualmente, há quem vai e volta, há quem fica e se aprofunda. Parcerias que, cada vez mais, ganham corpo e consistência. Parcerias que questionam, nutrem e provocam. Se olharmos até mesmo para esse dormir-com no sentido de decantação e potência do acaso, podemos dizer que são parcerias que, para além do efetivo, também acontecem no afetivo e no simbólico. Arte relacional em sua pura libido.
É verdade que ainda lido com dificuldades simples como: artistas disponíveis que moram longe e artistas na vizinhança que nunca tem disponibilidade. Mas, isso não é nada. Posso dizer que hoje meu trabalho é coletivo.
Assim, sigo disponível a minha trajetória, que venham novas parcerias!
*texto editado em 13/03/2026



Comentários