É O SER E O VIR A SER
- bito

- 27 de fev.
- 2 min de leitura
Na semana passada, tive uma emergência médica que acabou por me levar ao pronto-socorro. Uma vez lá, esperei.
Esperei muito.
A espera é para mim um acontecimento curioso, capaz de me bagunçar com muita força. Esperar é como estar diante de um espelho distorcido que ressalta meus desajustes. Meus pensamentos começam a voar sem limites e quase sempre me vejo encarando medos e ansiedades muito profundas.
O tema é tão pungente que até criei uma ação performativa para tentar lidar com ele. Em 2017, convidei pessoas anônimas a responderem a pergunta: o que é a espera para você? As respostas, ora gravadas em áudio, ora escritas num Post-it e coladas em meu corpo, foram para caminhos tão distintos quanto inimagináveis. Me recordo que uma delas evocava a espera como “um tempo dilatado em que os desejos e aspirações são e não são ao mesmo tempo. É o ser e o vir a ser”. Sempre me interessou muito este lugar estranho entre o nada e alguma coisa. Esta intersecção, onde cabem muitas coisas.
De volta ao pronto-socorro. Levei para me acompanhar na longa espera já prevista duas ferramentas antíteses: um livro, que me acalma e acolhe, e um smartphone com acesso às redes sociais, que me deixa ansioso e só. O confronto entre estas forças opostas me jogou num limbo assustador. Meus pensamentos pulavam da roupa que deixei batendo na máquina antes de sair de casa para a mensagem que tanto esperei e nunca chegou. Do documento que faltava anexar no e-mail de produção para como é mesmo que se escreve o nome do diretor polonês que fez a Trilogia das cores? Do quão interessante está ficando o adereço da performance que irei estrear logo mais para a resposta perfeita que eu poderia ter dado a adolescente que certa vez disse que meu trabalho era uma bosta. Tudo isso numa velocidade impossível de descrever.
O dramaturgo irlandês Samuel Beckett foi muito sagaz em se apoiar neste turbilhão para construir sua principal obra. Esperando Godot, um dos textos mais importantes do Teatro do Absurdo, é construído a partir de uma convulsão de pensamentos intrusivos e diálogos que parecem não ter sentido. Aliás, um sentido que se constrói na ausência de sentidos. Gosto muito deste trecho:
POZZO
Ele parou de chorar. (A Estragon.) Você tomou o lugar dele. (Liricamente.) As lágrimas do mundo têm uma constância inabalável. Para cada um que pára de chorar, em algum outro lugar outro começa. O mesmo vale para o riso. (Ri.) Portanto não falemos mal de nossa geração. Ela não é mais infeliz que as anteriores. (Pausa.) Não falemos bem, tampouco. (Pausa.) Não falemos nada sobre isso. (Pausa. Prudentemente.) É verdade que a população tem aumentado.
Enquanto eu olhava fixo para a tela que de tempo em tempo apitava uma senha pensei, principalmente, no choro. No tanto que eu havia chorado nas semanas anteriores e como, de repente, cessou. A vida tem dessas, ela chega e toma conta. Quem espera quase nunca alcança e às vezes surta.
Depois de intermináveis horas, finalmente fui atendido e liberado. Como saído de uma apneia, caminhei de volta pra casa pelas ruas dos Campos Elíseos, com as mãos cheias de antibióticos e a cabeça soletrando K-R-Z-Y-S-Z-T-O-F K-I-E-Ś-L-O-W-S-K-I.



Comentários